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Respira, não pira, inspira

Foto do escritor: Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
há 6 dias
6 min de leitura

Fiquei uns dias sem escrever neste diário de campo. Agora fica a deliciosa tarefa de trazer reflexões das andanças. Foram meses de contração e expansão, buscando finalizar o texto da qualificação, tirar férias, qualificar e tirar um tempo de reflexão de tudo que foi vivido.

Qualifiquei, em outro post falo mais sobre isso, mas fica aqui a reflexão de que foi um momento pra guardar na memória pela generosidade das contribuições da banca. Foi bom compreender o meu trabalho visto por outros olhos, lido, esmiuçado, por outras pessoas, que dialogaram comigo de forma curiosa, amorosa, contribuindo para reflexões e ampliação do que está produzido.


Um consenso das contribuições foi sobre falar mais das minhas histórias educativas, exemplificar meus passos, contar as histórias dos meus coletivos educadores. Trazer este, que seria meu capitulo 3, para o corpo da tese inteira. E fiquei pensando nas muitas histórias, vivências que quero escreviver aqui.


Hoje, dia 15 de outubro, dia em que nacionalmente se comemora a docência, gostaria de compartilhar a carta que escrevi em 16 de novembro de 2015, quase exatos 11 anos atrás. Quero começar a organizar minhas histórias, por este desabafo docente que se segue, mas também por este apelo e desejo que me convoca diariamente à educação.


Segue o texto


Pensei em diversos títulos para esta carta. Ela poderia se chamar “Porque me sinto um personagem Kafkaniano”  ou podia parodiar o slogan dos vinte centavos (veiculado durante as manifestações de 2013) e gerar o  “Isto não é só pelo jaleco”, ou poderia partir da frase da coordenadora escolar ao me dar a advertência e dizer  “espero que você entenda o meu lado” ou por fim, poderia me inspirar no quadro de Leon Ferrari e dizer “Leon Ferrari e sua triste razão tão atual”.

Como fui incapaz de escolher o título mais adequado para esta carta, passo a explicar cada um deles e você, leitor, decide qual cabe melhor a esta carta-desabafo.


Para maior clareza do que gerou essa carta, acredito ser melhor começar pelo título “espero que você entenda meu lado”.


Meu nome é E. Rebeca Vazquez e, pela primeira vez em 33 anos, assinei minha primeira advertência de toda uma vida escolar. Qual a falta que merece tal repreensão? O não uso de um jaleco. Sim, este é o motivo. Eu, professora, fui chamada à coordenação por não usar jaleco. Veja bem, não sou professora de ciências que trabalha em laboratório, não sou professora de enfermagem, medicina ou qualquer curso técnico que realmente necessite deste material.

Sou professora de música de escola regular de ensino fundamental. E sim... não uso jaleco. Acontece que moro em uma cidade que facilmente chega aos 38 graus e é um enorme desconforto utilizar uma peça de roupa a mais. Há também um incômodo estético em usar uma peça de vestuário, sem função prática, que simplesmente serve para tirar a individualidade e expressão de quem o usa, para normatizar, padronizar.


Antigamente este item era chamado de guarda-pó, guardava uma certa função, no entanto, hoje não usamos mais giz, apenas canetões coloridos. Me pergunto se é por isso que passou a se chamar jaleco e não guarda-pó. Mas o fato é que esta é uma norma escolar, eu descumpri e, de acordo com as regras, tive de assinar uma advertência escolar. No momento em que estava sendo informada, ouvi a frase “espero que você entenda o nosso lado”. Essa frase me ressoa de diversas formas:


“Espero que você entenda nosso lado- sim, é uma regra absurda e estou constrangida em te chamar aqui pra isso, mas...”  Oooops... não... acho que não era essa a intenção expressa na frase.  Vou tentar de novo:

“Espero que você entenda nosso lado- nós somos suas supervisoras e apesar de cientes do desconforto deste material, estamos tentando impor a você o uso deste odioso jaleco. Como você abertamente não nos obedeceu, somos obrigadas a utilizar de um instrumento de coação para submeter você ao nosso sistema”. Sim, acho que foi isso que eu deveria ter entendido, mas... isso só me levou ao meu segundo possível título: “isto não é só um jaleco”, mas por ora... ainda quero me delongar no primeiro título e dizer “espero que vocês entendam meu lado!”

#façameofavor! isso é uma escola. Até quando será gerida como uma fábrica de operários, que devem ser submissos e cumprir regras estabelecidas em detrimento do seu bem-estar, individualidade, criatividade e expressão? A escola não deveria ser o local que nos leva ao questionamento, à crítica, à criação, à conexão de conteúdos em prol de novas ações transformadoras? Então, por favor, entendam meu lado... usar esse jaleco é ofensivo, e me faz lembrar Karl Marx (sei que soa clichê, mas lembrei) “mais que o pão, o trabalhador necessita de respeito”.


E você leitor, pode pensar “tudo isso por causa de um jaleco?” não... não é só um jaleco. É um símbolo. Símbolos são fortes, movem multidões, movem desejos, nos fazem assinar advertências. Se símbolos não fossem tão fortes, não haveria necessidade de censurar a arte durante a ditadura. Já falei anteriormente, sou professora de música, a arte está transbordando em minha vida. Acredito na potencialidade de um símbolo, para amor e para a dor. E o jaleco, neste caso, é um símbolo sim, para mim e para minha coordenação. Um símbolo tão forte que gerou uma advertência. Símbolo da submissão e do poder, submete os professores aos coordenadores, e os alunos aos professores. Ao exigir a presença de um jaleco em sala de aula, coloca seu professor em uma posição de superioridade ao aluno, difere-o, hierarquicamente, simbolicamente, mas principalmente tradicionalmente. É um símbolo-peso da tradição. É também símbolo de uma escola que busca avaliar seus professores por este tipo de cumprimento de regra. (ressalto em parênteses, NUNCA fui chamada por ministrar minhas aulas com pouca qualidade/ planejamento ou eficácia. Sou reconhecida por meu compromisso e qualidade no que ensino)

 Bem, creio que já elucidei (brevemente, poderia dizer muito mais sobre isso) dois de meus possíveis títulos, vamos à terceira explicação: “Leon Ferrari e sua triste razão tão atual”.

Fui à recente exposição de Leon Ferrari no MASP, suas provocativas obras nos levam a compreender porque foi exilado durante a ditadura. Renegado por sua pátria, veio para o Brasil em época tão controversa. Deste momento é sua série “Banheiro Litografia”, que questionam a ordem, a censura, o padrão, a perda da individualidade. Ao andar, desavisada pelo MASP, me deparo com um quadro que me paralisa. Me transporta a mil texto que já li, a “n” situações que já vivi, e ao medo de perpetuar esse quadro. Coloco a imagem abaixo, certa de que esta não é a escola em que quero estar. Certamente não quero ser eu a latrina-exemplo-opressão-de-outros. E tenho certeza, essa latrina usa jaleco.



Para o último título, cabe a explicação de porque me sinto um personagem Kafkaniano. Não é porque me identifique literalmente ao Joseph K. em “O Processo”, afinal ele não sabia do que era acusado, e esse era o absurdo. O meu absurdo, o meu pesadelo Kafkaniano, se dá em outra esfera. Sei do que sou acusada, sei porque assino advertência, só acho isso tão absurdo como todas as situações propostas por Kafka. É nessa esfera de burocracia, regras, leis incoerentes, local de operários que cumprem regras sem as questionar, simplesmente porque existem, é nesse universo que me sinto caminhar, tal como Joseph K. E tal como este personagem, continuarei a declarar inocência. Ele não sabia do que declarava ser inocente, por não saber porque era julgado. Eu sei, sou julgada por não me subordinar ao símbolo-jaleco, mesmo assim, me declaro inocente. Se há culpa, ela é das crianças e de Paulo Leminski. Explico, o citado autor escreveu: “nesta vida, pode-se aprender 3 coisas com uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar  ocioso e chorar com força por tudo o que se quer”. Esta carta-desabafo é meu choro com toda força pelo que quero. Quero uma mudança real nos hábitos da educação escolar e que ela aconteça desde os pequenos símbolos até o rompimento das paredes que nos cercam/isolam do mundo.

Só para encerrar, deixo ao leitor a responsabilidade de escolher o melhor título, eu não consegui este feito. Agora deixarei que Caetano me embale novamente: “respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada... deusa de assombrosas tetas, gotas do leite bom na minha cara, e chuvas do mesmo bom sobre os caretas”. 

 

 
 
 

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