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A Cigarra e a Formiga

  • Foto do escritor: Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
    Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
  • 22 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

“Vamos transformar esse mundo” é uma frase recorrente do ativista Thiago Ávila, que defende uma sociedade igualitária, com justiça social para todos os povos e seres. Defende a ideologia do bem viver e luta por ela. Essa frase sempre possui um impacto imenso em mim... transformar o mundo. Grão por grão. Passo por passo. Quando eu era criança sempre me contavam a história da formiga x cigarra. E eu nunca gostei desta história. A vida segue e tantas e tantas vezes sou formiga, mesmo sendo a cigarra. A história tem como “tom” da narrativa louvar o trabalho árduo, sério, industrial (formiga) x a alegria, a arte, a liberdade que vemos na cigarra... quando o inverno vem, a cigarra quase morre de fome... e as formigas “salvadoras” cuidam da cigarra, que, alegremente, toca seu instrumento para todos dançarem. Desde a infância eu assistia indignada essa história. Como assim a cigarra pode estar errada ao seguir cantando e tocando? Como assumem que viver tocando não requer estudo, dedicação, horas e horas de prática? Porque o fato de tocar música ser algo prazeroso, é visto como menor, desprezível ou pequeno na ordem da importância das coisas?

Eu passei boa parte da minha infância e adolescência sentada por horas na frente do piano... horas de dedicação, nem sempre prazerosas, mas dedicadas à alcançar objetivos que eram traduzidos em arte. As formigas que continuem no que lhes dá prazer... meu trabalho árduo é transformar o mundo com a arte, junto das formigas, alegrando o baile da vida.

Esse dilema continuou me  ‘perseguindo’ ente o que é dito sério e responsável x o que causa prazer como algo legítimo e necessário. Quando fui escolher qual tema desenvolver no mestrado, eu tinha o dilema sobre pesquisar algo na área do ensino musical para crianças autistas x meu desejo crescente de compreender com os Djs e produtores de dancefloor aprendem a compor. Novamente o dilema entre o prazer x o utilitário e visto como “mais importante socialmente”. E foi numa boate, em dia de festa, que decidi meu tema. Dançar naquela noite, me salvava do ordinário da vida, me encheu de alegria, foi necessário para aliviar uma dor contida na existência diária. Ali, me assumi novamente cigarra, mas desta vez compreendendo o prazer e a alegria como ferramenta de resistência. E isso não era menor que trabalhar com a educação de crianças autistas.

A verdade é que as “causas” são tantas neste mundo, que existem várias formas de frentes e ações. Busca o equilíbrio entre vida pessoal e social, não é algo simples em um mundo desigual e caótico, ainda mais aqui, na periferia do Sul Global.

 
 
 

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