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O que a materialidade convoca?

  • Foto do escritor: Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
    Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
  • 9 de mai.
  • 3 min de leitura

O que a materialidade pode evocar, convocar, provocar, disparar? Como o acaso flui entre o fazer artístico e o acadêmico?

Meu ser se sente aberto e poroso aos sinais que possam entrecortar esse viver-pesquisa e no meio de tantas informações, dados, imagens, provocações, fico pensando no poder do acaso dentro de uma cartografia artística.

Durante a graduação, John Cage foi um dos artistas que mais me impactou e transformou meu modo de ver/fazer/sentir/ouvir arte. 4min e 33 segundos e Obras de Piano Preparado me fizeram rever meu conceito sobre o que é música, o que é o silêncio, qual o importância do piano clássico na minha vida e toda expansão que existe para além da música formalizada em partitura, técnica e tradição. (talvez mais tarde eu aborde como esse impacto teve repercussão em diversas partes da minha vida, no entanto não é objetivo desta postagem)

Aqui penso em como a materialidade nos convoca a refletir o mundo e agir sobre ele.

Quando Cage desloca a ação sobre o piano, colocando em partitura 4´33 segundos onde o pianista deve fazer gestos corporais e não acionar as teclas do piano - deixando que o som do ambiente seja "emoldurado" na performance e colocado à forma ativa de ouvir o ambiente como música - ele provoca uma nova forma da plateia ser e estar no ambiente, de perceber o ambiente e cada ruído como música. O acaso fica aberto à disposição da música e cada tosse, ruído, vaia, suspiro, tem potência estética dentro desta performance.

Durante essa pesquisa, me sinto constantemente com o corpo disposto e aberto, como se os 4 anos do doutorado fossem um recorte na minha forma de ser/estar/perceber o mundo. Cada gesto, elemento, acaso, busca, pode ser incorporado na tese.

Essa constante permeabilidade tem me causado um tanto de insônia e euforia, ansiedade algumas vezes, mas não mais do que quando me envolvo com algum processo criativo/artístico.

Essa noite não dormi bem, mais uma noite sonhando com a tese, tentando organizar/fazer a curadoria de quais informações entraram na tese e como irei compor com tudo que tenho levantado.

Após uma semana de longas horas de estudo na biblioteca, decidi que na sexta-feira iria à tarde fazer uma oficina sobre Colagem


Em dado momento da oficina, a professora Rita Márcia Magalhães Furtado, cita Deleuze e Guattarri, fala do processo rizomático e sobre o que a materialidade nos provoca. Tal comentário foi uma relação direta com meu estudo matinal, o texto - "A cartografia parece ser mais uma ética (e uma política) do que uma metodologia de pesquisa", de Luciano Bendin da Costa. Uma deliciosa indicação de leitura da minha atenciosa orientadora Heloísa Lins.

E o processo de colagem, de leitura, de viver, de pensar o acaso, de rememorar Cage, me causam essa insegurança - e euforia- de quem navega tendo somente as estrelas como ponto fixo a se guiar. Algumas noites são mais escuras e as luzes não brilham o caminho com tanta certeza, mas há o mistério de navegar, com cuidado de ouvir o sabor do vento e dos mares, buscando na vida vivida as indicações por onde seguir.

E pensar nesta materialidade que provoca - penso nos bordados, assemblages, nas fotografias, nos samples, nas misturas, nas instalações e em como cada uma destas experiências artísticas podem contribuir para nos aterrar e resensibilizar neste mundo que nos quer apaticamente produtivos, medrosos, culpados, perseguindo uma produtividade maquínica.

Vivo essa tese como quem tece, reelabora fio a fio. Desmancha, toma distância pra ver o desenho que se forma, refaz outras emendas e fios, dá nó, desfaz o nó. Muda as cores e tenta trazer arte/vida/reflexão/escrita em meio ao caos cotidiano - e ao acaso - de viver.

 
 
 

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