Dança, criança!
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 5 de mai.
- 4 min de leitura

Neste ano tenho participado de um projeto de extensão da UnB. "Sumak Kawsay - Bem viver: Culturas insubordinadas e Invisibilizadas da América Latina em suas vozes pela Cultura da Paz"
"tem por objetivo investigar, sistematizar e difundir os saberes ancestrais e as cosmologias dos povos originários e tradicionais da América Latina, articulando ensino, pesquisa e extensão como instrumentos de transformação social e acadêmica. Busca-se promover o diálogo intercultural, a valorização da diversidade étnico-racial e a construção de uma cultura de paz, integrando ações formativas, vivências imersivas e produção científica crítica e transdisciplinar." (https://sumakkawsay.unb.br/)
Me inscrevi neste curso de extensão em busca de aprender mais acerca de outras cosmovisões e em busca de saberes ancestrais que possam me elucidar outro modo de existência e pertencimento. Fui selecionada para participar de imersão dos alunos do curso em um Quilombo da Chapada dos Veadeiros- Goiás. Na área rural de Teresina de Goiás, o Quilombo da Ema, recebeu uma equipe de 40 estudantes deste curso. Foi um dia de trocas e reflexões. Apresentações artísticas, passeio na comunidade, comida comunitária do Quilombo, feira de venda de produtos, desfile da Beleza Negra e roda de conversas.
Dentre tantas atividades, ver a dança da Sussa teve as seguintes características observadas, que me me despertaram uma amálgama de sentimentos:
A dança Sussa foi uma boa brincadeira que envolveu diferentes gerações: crianças, adolescentes, jovens mulheres adultas e idosas. Matriarcas e Crianças em comunhão na brincadeira de dançar;
Apesar de uma senso de passos comuns à Sussa, no geral, o brincar/dança era livre, ora dançando por pares, ora sozinhas;
O riso e a brincadeira eram visíveis nos corpos dançantes;
Os corpos saboreavam a música com liberdade, sem opressões sobre o "passo certo", todo movimento era incorporado de forma livre, fluida, cada pessoa em seu estado de concentração e possibilidade de movimento;
Algumas mulheres revezavam a dança com a garrafa na cabeça, contornando a roda, de forma a evitar "esbarros", rodopiando com a cabeça altiva, leveza e perícia no equilibrar dançante;
A brincadeira da dança durante a Sussa ou após, durante o forró, possuía rebolados, requebros em que as crianças (meninos e meninas) dançavam com desenvoltura, no miudinho, com os corpos embalados. Não houve nenhum momento de repressão sobre os corpos das crianças e adolescentes. A brincadeira de dançar seguiu sem nenhuma intervenção e era visível que as crianças mantinham essa prática de dança, pela perícia e envolvimento.
Minha criança interna sentou ao redor do baile e se deliciou com o que via. Corpos livres, brincantes, rebolantes, trocando em comunidade - intergeracional, sua alegria e celebração de viver.
Fiquei pensando nas nossas escolas tradicionais e em como tais corpos se desenvolveriam de forma mais "dura". Repressão e falta de perícia nos passos. Incertezas nos corpos discentes.
O quilombo nos recebeu com cuidado, delicadeza, com carinho. Fomos acolhidas em atividades que adentravam a casa, a cozinha, o rio. E passamos o dia sob sombras de mangueiras. A internet não funcionava e as vendas das feiras foram feitas "na confiança" do pagamento a ser efetuado depois. Sem registro, sem garantias, porque a palavra dada não carecia de conferência.
O tempo escorreu de forma mais lenta, nos lembrando de estar presentes, sem ser roubados por telefone, internet ou outros compromissos além de estar ali. Um dia de troca entre estranhos, conversas embaixo de mangueiras, dentro do rio, ao redor do fogo e dos afazeres da comunidade.
E esse tempo de presença, de envolvimento, de pertencimento, revelou outra forma de viver a infância, as relações com os ancestrais, com a própria história e território.
Desta vez não dancei a Sussa, queria ver, rir, pensar. Não pensei com o corpo que dança, meus passos estavam vacilantes - espero que hajam outras oportunidades de brincar a Sussa.
Ouvimos de Eleusa Pereira - uma liderança comunitária - um pouco da história do Quilombo, da luta por reconhecimento e políticas públicas para o território. Sobre a importância do reconhecimento da Beleza Kalunga, valorização dos corpos, da identidade. Sobre a transformação no território sobre "ser Kalunga" e em como as políticas públicas mudaram a percepção sobre ser Kalungueiro/a. Se antes as pessoas tinham vergonha, agora lutam por este reconhecimento e comprovação.
É lindo ver as crianças dançando, desfilando, rindo, tocando Sussa (meninos) e tornando vivo em seus corpos o saber ancestral dos Kalungas. As matriarcas - mães pretas - com o olhar profundo e doce, rindo para suas crianças, dançando com elas, divertindo-se com a folia realizada e a visitação dos estudantes Sumak Kawsay e também de parentes.
Como trazer esses saberes para a nossa escola formal? Como trazer vida para os corpos dos nossos jovens atrás de telas? Como criar comunidades de fortalecimento e troca de sabedorias? Como manter a infância viva e protegida diante de tantos horrores em nosso mundo?
É preciso dançar, menina. Sei um "jeito certo", só brincar com o movimento, ouvindo o tambor chamar. Dançar pra movimentar a vida, celebrar a existência, chamar a potência da terra ao bater o pé em comunhão.
O quilombo nos acolheu em doçura e presença - raridade pra nós, rotina pra eles.
Acolhimento. Doçura. Presença.
Generosidade. Confiança. Riso. Dança. Música. Pulso Coletivo. Infância.

Fecho este relato com a força da foto da Banda Mirim da Sussa, concentração, diversão, tradição e partilha em uma foto da apresentação.


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