Corpos Sonoros Brincantes
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 6 de mai.
- 2 min de leitura

Quilombo da Ema - Folia Mirim - Sussa - 02 de maio de 2026
Corpos brincantes, sem medo do riso, do barulho, da poeira, do rebolado e da tradição. Sobretudo, sem medo de brincar com os adultos.
Corpos que crescem batendo em tambores, bailando entre crianças e entre adultos, subindo poeira enquanto brincam com o som e com o sabor do próprio corpo.
Momentos de partilha entre adultos, momentos de apresentação aos olhos ancestrais. Tudo em meio à festa, à comida, ao som amplificado ou orgânico.
O "certo" não tem voz, porque o errar não existe. Existe o fluxo, o movimento, a troca, a vida pulsando em comunhão. A professora é guia amorosa, que organiza a brincadeira de forma respeitosa, entendendo os desejos, deixando as crianças livres para experimentar o microfone, os tambores, os adereços, os objetos envolvidos nos festejos e cultura da tradição.

Nesta escola do Quilombo, as crianças continuam vivendo a arte na vida e isso se reflete no sabedoria do corpo. O movimento internalizado de como bater o pé, bater o pandeiro, rebolar o quadril no forró miudinho.
Os adultos passeiam em volta, com olhares amorosos de quem sabem que a tradição tem mais uma geração de vida. Criam espaços de acolhimento, criam passarela com a Xita. Desfilam, aplaudem, valorizam as jovens vidas que carregam com orgulho a tradição. Ciclo. Matriarcas, mãe pretas, dançam em conjunto com outras gerações. Caminham lado a lado, partilhando saberes. Em um outro tempo. Lento para nossos olhos acostumados ao digital. Uma lentidão saborosa que carrega presença. Sente-se o desfilar das horas sob a sombra da mangueira. Entre uma apresentação e outra, momentos de pausa. Espera. E nesta espera a gente tece reflexões, conversas, risos, movimentos. Troca de lugares, ajeita o corpo na cadeira ou no chão. Observa como a luz do dia se finda. E aguardo o preparo das crianças para a próxima atração.
A professora, olhar firme e amoroso, conduz amorosamente os alunos. Me toca a forma como ela lida com "a bagunça". Ela não tenta dominar os corpos e reprimir a brincadeira. A gritaria feliz das crianças entrecorta o ar... e logo vira uma paisagem sonora constante, assim como as maritacas ao cair da tarde.
Não se vê crianças com dedos nas telas... elas buscam instrumentos musicais, buscam outras mãos, sobem em árvores, correm esvoaçantes ao redor da roda de conversa. Os olhos dos pequenos se mantém vivos e atentos, tantas vezes buscando a orientação amorosa da professora. Não são olhos de medo para as mulheres adultas, são de respeito.
Os homens da comunidade estavam presentes na festividade, mas em menor número. As mulheres continham a liderança deste cuidado e transmissão de saber daquele momento. Falou-se, na roda de conversa, sobre diversas mulheres poderosas da comunidade, mães pretas - raizeiras, parteiras, lideranças políticas e de afetos.

E neste saber que tem outro passo, outro ritmo, outro corpo. Que tem tanto pra ensinar da relação com a comunidade, com a terra, com a arte, fiquei com olhos de encantamento ao ver o dançar forró miudinho. Fiquei pensando que na escola já seria um espaço de proibição destes corpos, a dança seria coreografada e estaria perdido o livre brincar/dança.



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