Autorretrato
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 30 de out. de 2025
- 3 min de leitura

"Somos seres de experiência. Tudo o que se passa na vida nos atravessa, nos altera e faz com que cada um de nós sseja único, mas habitado por muitos - e nessa multidão singular tecemos uma rede infinita de aprendizagens. A encantaria da educação é parir seres que não cessam de renascer ao longo das suas jornadas" (RUFINO, 2021, p 17)
Eu esperei muito até vir fazer minha pesquisa de doutorado. Não foi um caminho que segui na pressa. Cultivei o desejo por mais de uma década, organizei vida pessoal, profissional, esperei o momento certo, o local certo e me organizei para poder pausar a vida profissional enquanto estudo. Sei que é um privilégio enorme em uma sociedade onde tantas pessoas não possuem essa possibilidade.
Com uma licença para estudar, pude me mudar primeiramente para Campinas, depois para Atlanta e agora pro meio do mato. Pude me dar longos momentos de reflexão e de mergulho. E me preparei para a “jornada” que seria a confecção desta pesquisa.
Eu não queria que a pesquisa se resumisse ao trabalho acadêmico em si, queria que englobasse minha vida em vários aspectos, queria ser “tomada” por um novo ritmo, novo fluxo, novas experiências e uma forma diferente de ver e interagir no mundo. E assim tem sido.
Dentre tantas reflexões, fico pensando em como reencontrar a artista em mim. Aquela que desde pequena me colocou em situações de me sentir “diferente”, um bocado deslocado, as vezes inadequada, certamente intensa. E essa artista que se escondeu tanto tempo nos bastidores, nas salas de produção, no “escondidinho”, na curadoria.
Fico refletindo o quanto de mim há na “timidez” e o quanto há de repressão. O medo do palco, do holofote, do destaque, da censura.
Fico encontrando minha criança ferida, meio desconcertada, querendo achar a própria voz e ao mesmo tempo lembrando que fui ensinada a chorar calada. E o que era pra ser uma caminhada de pesquisa... torna-se uma pesquisa viva, na carne, movendo mundos internos e realidades quase esquecidas.
Sempre amei a fotografia, mas me sinto desconfortável diante da câmera, como objeto a ser fotografado e, justamente por isso, tenho me proposto a fazer autorretratos. Busco a lente encontrar também a artista. Entender minha identidade de professora-artista-pesquisadora e todos os outros universos que me compõe.
Penso na composição, na luz, na técnica, no ângulo, nas sombras. Penso também no meu envelhecimento, nas curvas mais preenchidas, nas rugas, nas experiências. Penso, com carinho, no registro que quero manter deste momento tão único e especial da minha vida. Sei que olharei com amor e respeito para este tempo de longas reflexões e experiências. E busco entre os detalhes das fotos, onde devo bordar. O que mais há pra ser dito que a fotografia não captou, como ampliar o sentido da tecnologia com o bordado ancestral.
Será que as fotos serão capazes de captar parte da reflexão que tenho com os textos? Ampliar sentidos, mover outras subjetividades e disparar novas perspectivas?
Em que sentido o autorretrato pode ser um espelho narcísico ou uma lupa que revela e amplia o que escondo? De que forma posso olhar com mais compaixão e curiosidade para minha caminhada na terra? Como transformar a vida em uma experiência estética rica em diversos momentos? Até onde a Pesquisa Viva da a/r/tografia move experiências terapêuticas e como analisá-las à luz da pesquisa?
O excesso é uma das camadas da a/r/tografia e, neste sentido, isso me acalma. Porque já tanto excesso de pensamento, reflexão, possibilidades de caminhos, produção e criação de sentidos, que isso me deixava apavorada. Agora flui... depois separo, analiso, categorizo e organizo. Por ora, deixo fluir toda experiência que eu puder. Sei que serão estrelas para me guiar nesta pesquisa cartográfica.
Me recordo dos meus momentos de composição, onde o caminhar tem técnica e errância. Onde separo os elementos que quero utilizar (instrumentos, campo harmônico, texturas, samples, etc) e depois vou organizando ao sabor do devaneio e experimentação. É como bordar também... um caixa de tecidos e muitos fios... aos poucos a seleção das cores, dos pontos, do traçado... a tentativa e erro em busca de um avesso perfeito, rs... e a pesquisa viva segue, o bordado segue, a artista/professora/pesquisadora tateia e dança neste fluxo, ao sabor da intensidade com que se propôs viver este momento.



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