Erguer a Voz - bell hooks
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 21 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de dez. de 2025

Começo o livro e as lágrimas me inundam. A criança tão falante, tão curiosa, tão pulsante foi aprendendo aos poucos a se calar. Agora tento desfazer o feitiço. Achar o grito e expor a voz.
Fico pensando na frase "engole o choro" e penso que agora, depois de tantos (en)goles, reencontro um choro escondido na infância que ficou preso bem na garganta. Hoje foi o dia de achar essa dor do silenciamento.
Fui educada em um lar com muito amor, porém patriarcal, com suas opressões e, consequentes, silenciamentos. Fui a única menina, com três irmãos e - de acordo com meu pai- "a menina dá mais trabalho que os 3 meninos". A menina era questionadora, com opinião forte, que "tomava frente e iniciativa" das coisas, comportamento que deveria vir dos meninos. A repreensão vinha sem em dose dupla: pro meu irmão por não tomar iniciativa e pra mim, por tomar.
Meu comportamento, minha opinião, meus desejos e curiosidade não eram adequados ao que o patriarcado determinava. Eu deveria ser mais conformada, mais calada, mais pacata, mais silenciosa e sem tantos quereres.
Fui, neste processo, perdendo a voz, virando um sussurro de mim, transbordando a expressão por outros meios. Procurei refúgio na arte e nos livros. Como técnica de sobrevivência fui calando, reprimindo desejos, sonhos, ideias. O olhar continuava vivo, mas a voz calada. Boa aluna, que quase nunca perguntava nada, não se envolvia em debates. Não dava opinião, apesar de as ter aos montes. Guardava toda a mobilização para movimentos estudantis, onde escoava um pouco do meu desejo de mudança por uma sociedade mais justa.
Lembro de uma vez tentar escrever uma carta para meu pai, explicando o motivo das minhas mágoas. Pensei que já que eu não conseguia falar, talvez com a escrita minhas palavras pudessem ser ouvidos. Que engano! Passei por uma "sabatina" onde cada frase foi lida pra mim com uma interpretação torta, distorcendo o sentido, tornando tudo ainda pior. Meu pai lendo repetidamente cada frase e pontuando o quanto meu incômodo revela meu coração "duro, ingrato e difícil". A carta não me salvou. Mas a música sim., meu piano companheiro não questionava meus porquês.
Almejando sair da casa paterna o quanto antes, para poder alçar vôo. Justo eu, que incontáveis vezes, ouvi "Rebeca, vou cortar suas asas" - frase que era precedida por mais um castigo e isolamento.
Fui uma criança estudiosa, tanto na escola, quanto no piano. Mas eu era uma menina inconformada com respostas simples e ordens impostas sem justificativas a não ser "porque Deus quis" ou "porque estou mandando''. Essa sede de compreensão e inconformidade foi o suficiente para transformar minha adolescência em um campo de guerra de constante desacordo familiar. Então toda minha expressão, na adolescencia, eu direcionava ao piano. Meu grito era dissonante, frenético e forte, expresso em obras como de Scriabin, Mignone e Villa-Lobos.
Saí de casa cedo, para fazer faculdade de música - e pude respirar aliviada, ter novas experiências, optar por não ir mais à igreja, por poder escolher minhas roupas e poder viver minhas opiniões. No entato, certas marcas, demoram mais pra cicatrizar.
Ao longo da vida, tive constantes momentos de afonia. Procurei diversos otorrinos, fiz exames e o resultado era sempre o mesmo "é psicológico". Fui fazer terapia com fonoaudilóga, não adidantou... "é psicológico". Procurei terapia... mas não adiantou. Meu "psicológico" continua me tirando a voz, literalmente. Segui a vida com a voz vacilante. Nunca fiz as pazes com o canto... somente em casa, no banheiro ou em momentos de solidão. A minha voz de passarinha fica reclusa à minha intimidade mais profunda.
Minha voz simplesmente "some" em momentos de tensão e opressão. Eu fico com um nó na garganta, uma dor absurda e qualquer tentativa de comunicação saio com a voz rouca. Vivi muitos anos com a rouquidão como companhia. Ouvi de diversas pessoas que minha voz era charmosa, por conta da rouquidão. Mal sabiam que esse não era pra ser o meu "natural".
Por algum tempo, foi minha identidade vocal. Aos poucos, fui achando modos de comunicar e hoje, raramente, fico rouca. Muitas vezes me calo, mesmo com a cabeça cheia de coisas pra dizer.. O tempo todo tenho uma censura interna que pergunta: "isso deve mesmo ser dito? Qual a vantagem de expor sua opinião? Não é melhor só calar e ouvir e depois agir como quiser, mas sem se expor?"
Hoje, lendo o prefácio do livro de bell hooks... olhei para minha criança interna e chorei. Está na hora! - diz bell hooks- "Vou Erger a voz" - respondo tímida, mas sei que se necessário vou gritar., e quando me perguntarem porque grito tão forte, vou dizer sorrindo jocosamente "é psicológico" .



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