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Sulear, Sankofa, Futuro Ancestral e o esgotamento nas redes do capitaloceno

  • Foto do escritor: Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
    Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
  • 13 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de abr.

Latina demais para ser minimalista
Latina demais para ser minimalista

Ontem reli alguns textos sobre Feminimo Decolonial e hoje acordei reflexiva. O que a terra pode nos ensinar? Como a relação com as sabedorias ancestrais podem nos ensinar uma reconexão verdadeira com o mundo que nos cerca? "mais terra, menos tela".

Acordei e fui ver vídeos sobre como achar a argila, como produzir um forno cerâmico com barro e palha, como moldar e queimar. Da terra ao vaso. Em determinado momento pensei: "Acredito que tudo isso está profundamente interligado com minha pesquisa, mas como elaborar os pontos de conexão e demonstrar o quanto esse retorno ao barro pode estar intimamente ligado à educação midiática?"

Nesta reflexão relembro sobre a necessidade de trazer a criação para atos de presença, com uma relação que valorize o saber ancestral, que reforce os laços de convívio com a comunidade, com o saber local, com o território.

E ao mesmo tempo que percebo essa confluência entre terra e tela, essa conexão íntima que equilibra o virtual com o presencial, penso no que brota da terra. O que as plantas podem ensinar sobre o sentir, sobre estética, sobre arte e subjetividade? Quais são os artistas que ao discutirem a relação com a natureza, lançam manifestos artísticos sobre nosso mundo?

Imediatamente penso em Dayara Tukano, Jaider Eisbell, Denilson Baniwa.

Paro um momento para pesquisar sobre o Denilson Baniwa e volto aqui com os olhos marejados. Li uma carta escrita por ele na ocasião recente do encantamento de Jaider Eisbell - https://site.tucumbrasil.com/carta-por-denilson-baniwa/

Ta aí.. a discussão sobre arte, luta indígena, redes sociais e opressão do mundo branco. E ele demarca o retorno para sua saúde. Menos tela, mais vida. Arte para resistir, mas sem esgotar.

Como aprender e somar nesta luta por decolonizar o mundo e reconectar os corpos com o mundo, de forma responsável com todos os seres?

Denilson Baniwa fala em sua carta, das muitas lives que ele fez, aparentemente bem, mas por dentro cansado, exausto. Relembro de meu encontro virtual com ele e a live que se dispôs a fazer para somar com nossa formação de professores da rede estadual de Goiás- com a formação do Ciranda da Arte, enquanto eu fui diretora. Fico pensando que talvez este momento de generosidade dele conosco, tenha sido uma pedra a mais neste cansaço..

Nossa live, feita no furacão pandêmico do Abril Indígena de 2021 - https://www.youtube.com/watch?v=qjPIKDI_pVQ e a Carta de Denilson Baniwa postada em 06 de novembro do mesmo ano. O quanto nossos corpos estavam exaustos, preocupados, cansados, on-line e também comprometidos, artivistas, buscando transformar o mundo e nos conectando da forma virtual que podíamos? O quanto isso nos custou e como podemos aprender a militar sem adoecer nas redes?

Achar a medida e o equilíbrio entre militar e manter a saúde é delicado. Em um mundo que tudo é tão urgente, como pedir calma e pausa? Como compreender a hora de silêncio, de descanso como algo tão urgente como a ação?

Novamente tenho pistas que as respostas para essas questões são mais antigas. A mirada é necessária para o tempo anterior às redes sociais, ao capitalismo, à exploração do mundo como se fosse um recurso inesgotável. Futuro Ancestral, como já nos deixou escrito Krenak.

Aldeia Multiétnica. Foto tirada em 2016


Ou como a Cosmovisão Bantu acredita: a memória não é arquivo estático, é movimento. vivo nos corpos que seguem,. Mesmo após a partida do ancestral, a vida continua naquele que não é esquecido. Neste sentido, manter a tradição é garantir o futuro, quer seja nas cantigas, nas danças, nas artesanias. Tudo isso em movimento e sendo ressignificado e expandido por um movimento dinâmico que honra o que passou."

Penso nos desenhos Sankofa que encontramos nas arquiteturas e trabalhos em ferro produzidos no Brasil ao longo de tantas gerações. Sankofa é um Adinkra - (símbolo africano) que representa um pássaro olhando para trás - um lembrete para sempre buscar no passado as bases para se construir o futuro.

“Os adinkras pertencem à cultura dos povos da língua Akan, que em sua maioria se localizava na região que hoje reconhecemos como Gana, Burkina Faso, Togo e Costa do Marfim”, esclarece a professora.(...) Luciano Gomes explica que sankofa é uma palavra da língua Twi ou Axante, falada pelos Akan. “A palavra é composta pelos termos san, que significa ‘retornar’, ko, que significa ‘ir’, e fa, que quer dizer ‘buscar’ ou ‘procurar’. A tradução do termo seria ‘volte e pegue”.

Dois símbolos representam a palavra: o primeiro é um pássaro mítico e o segundo, um coração estilizado, com desenho baseado no formato do pássaro mítico. “Em sua simbologia, sankofa representa a ideia de olhar para trás para aprender e buscar sabedoria nos ensinamentos do passado, enquanto avançamos para o futuro”, aponta o professor.

O pássaro representa o conceito de prestar atenção no passado para aprender e buscar sabedoria nos ensinamentos mais antigos. Ele simboliza que devemos aprender com nossas histórias e tradições para nos guiarmos em direção a um futuro melhor.

“O ovo, que costuma aparecer nas costas do pássaro, representa o potencial, a fertilidade e as oportunidades que surgem quando nos reconectamos com nossas raízes e aprendemos com o passado. Ele simboliza a ideia de renascimento, crescimento e rejuvenescimento que ocorre quando reconhecemos e valorizamos as lições do passado”, elucida Luciano.

Já o coração estilizado no símbolo sankofa representa o aspecto emocional e afetivo do retorno ao passado para aprender. Ele simboliza o cuidado com a própria história e a valorização das tradições e culturas de nossos antepassados.

“O coração também pode representar a conexão emocional que sentimos ao nos reconectarmos com nossas raízes e aprendermos com a sabedoria acumulada ao longo do tempo”, sugere o professor.


O símbolo do sankofa pode ser encontrado de diversas formas em grades, janelas e portas de ferro das casas aqui no Brasil. “Parte de resgatar o passado é entender como esse símbolo chegou e se popularizou aqui no Brasil, mesmo que nem todos tenham consciência de seu significado”, explica a professora Mayra.

“A região da costa africana ocidental, onde se localiza hoje Gana, Burkina Faso, Togo e Costa do Marfim, dominava historicamente a metalurgia. A partir do tráfico negreiro, ao chegarem no Brasil, as pessoas escravizadas são alocadas na mineração e metalurgia para exploração da sua mão de obra”, conta a professora. Como consequência, as mãos que produzem e manuseiam os ferros das casas são mãos africanas e descendentes de diferentes nações africanas.

“Pensando no significado do sankofa, é importante reconhecer esta estratégia de comunicação. Ao decorar os portões e janelas com o símbolo, é passada uma mensagem a todo o povo Akan de que não devem esquecer do seu passado e de sua origem”, reflete a professora.

(...) O passado de uma sociedade molda sua identidade coletiva. “Ao compreender de onde viemos, quem éramos e como chegamos onde estamos, podemos ter uma compreensão mais profunda de nossa identidade como comunidade, nação ou cultura”, aponta Luciano. E, dessa forma, fortalecer os laços sociais e culturais entre os membros da sociedade.

Para o professor, o resgate do passado ajuda a preservar a memória coletiva de uma sociedade. Isso significa reconhecer e honrar as contribuições de gerações anteriores, mantendo viva sua história, cultura e tradições. Como consequência, uma sociedade que negligencia seu passado e seus ancestrais, arrisca perder parte de sua identidade e sabedoria acumulada ao longo do tempo.

Neste sentido, o sankofa não é apenas sobre retornar para reconhecer os erros, mas também os acertos. Quem aponta isso é Mayra. “Sankofa, para os descendentes do povo africano, é sobre quais estratégias foram usadas para sobreviver ao que passou e como isso se apresenta nas nossas estruturas sociais até os dias de hoje”.

“Acredito que resgatar o passado, tendo em mente a população negra brasileira, é importante para reconhecer que existem várias histórias, povos, culturas e saberes anteriores à colonização e à escravização. É o exercício do retorno a algo que o tráfico atlântico retirou”, finaliza a professora.

(...)



Quilombo Kalunga 1 - Vão de Almas. Foto tirada em 2018.




 
 
 

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