Meu jardim e meu silêncio
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 21 de ago. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de abr.
Hoje abro a tela sem tanto medo, engraçado como me propor a escrever um diário torna a atividade um foco de atenção no dia. Vários momentos passam a ser interesse de foco da minha narrativa, faço listas sobre tópicos que gostaria de discorrer. Seleciono frases, autores, autoras, fotos.

Meu whatsapp me distrai por um instante. Retorno à tela, silencio o aparelho. Ligo Aphex Twin no spotify e me preparo pro meu mergulho na tela.
Ontem teve aula com o André. O texto foi apresentado pela Mel. Grada Kilomba- Memórias da Plantação. Entre tantas frases e potências deste livro, a apresentação da Mel das primeiras páginas me despertou o interesse de escrever…
”sou quem escreve minha própria história, e não quem é descrita”.
Fico pensando sobre a necessidade e importância de escrever sobre minha história e trajetória. Até onde há valor nesta perspectiva? Será um ato egóico de pouca valia? Qual a relevância do que eu posso produzir?
Em teoria, autoras que falam sobre esse tipo de escrita, me emocionam. Reconheço a validade das narrativas outras, me emociono e percebo o mundo por estas outras perspectivas, mas ao mesmo tempo, quando se trata da minha história… me sinto vacilante, insegura, questionando a validade de enveredar por aí.
Penso em Evaristo Conceição, Clarice Lispector, Grada Kilomba, Lélia Gonzales… e me sinto pequena, porém desejante. Lembro da tese incrível que li da Luciana Mitzutani…. me animo bem mais. Que trabalho lindo, em primeira pessoa, de uma artista-militante daqui, com dores e curiosidades tão semelhantes às minhas. Acho que posso encontrar um caminho nestas brechas.
Penso em Rufino e nas formas de encantarias com o papel que ele faz. Sobre como a história da escola é potente quando se busca fazer do ofício de ser professor um caminho para outros mundos possíveis.
E me lembro de Heloísa Lins e do livro que estou lendo “ Pedagogias da morte e da guerra como legado das direitas radicais às crianças e adolescentes: discursos, estéticas e políticas” - que manifesto, compromisso com o tempo histórico, urgência de mudança e clareza na importância desta escrita de quem está cartografando o mundo e tentando torná-lo mais justo, terno e saboroso.
Algumas memórias de dor também aparecem… de tempo em que eu era uma criança falando e ouvia o tempo todo “pára de ser ‘aparecida’, esse comportamento não é de menina, você é muito ‘bocuda’... e por aí vai… e eu fui calando, calando, tendo um nó na garganta que se transformava em rouquidão e silêncio. Será que em 4 anos de doutorado vou conseguir romper esse silêncio imposto?
Novamente Grada Kilomba me vêm à memória… a máscara do silenciamento.
“Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?”
Sou um peito de angústias e esperanças. Talvez, contra as expectativas, mais esperanças que angústia. Acho que isso se deve à uma capacidade de resignação contra certas coisa (nem sei se gosto disso), mas uma capacidade de acreditar que, dentro do meu entorno, eu posso fazer melhor, posso alterar uma parte do todo… e, por menor que isso seja, me satisfaz. Não grito em voz alta a certeza da próxima revolução, mas acredito no poder da resistência.
(pausa pra reunião no meet com Márcia Strazzacappa sobre organização de evento)
Sou muito feliz pelos encontros… tenho sorte com pessoas. Minha vida é recheada de pessoas incríveis e amizades memoráveis. Sou rica de amores e afetos. Márcia Strazzacappa era um destes nomes que lemos durante a graduação e a vida profissional… uma “sumidade”, uma referência. Não tanto para área da música, mas para a performance em geral. Eis que ela está na Unicamp, no departamento e linha de pesquisa que entrei. Que privilégio! Para além de conhecer uma pessoa “reconhecida” por anos de trabalho… ela é incrível. A empatia foi imediata e é uma delícia poder trabalhar com ela… organizada, ágil, prática, sabe delegar e trabalhar em equipe. Uma professora, pesquisadora e produtora de excelência e amorosidade. É fácil de conversar, comunicativa e afetiva.
No primeiro semestre de 2024 já estive com ela na organização dos eventos do Laborarte e assim sigo… agora no grupo de pesquisa que ela coordena. Ao final desta reunião, onde discutimos sobre o site e logo do MEET, ela me deu orientações sobre o doutorado sanduíche. Me senti acolhida, cuidada, orientada. E isso dá ânimo pra ser mais… pra ir sem medo. (Obrigada, Márcia, por tudo e pela inspiração que nossos encontros me trazem)
Continuo depois… sobre escrever, sobre pesquisar, sobre narrar… agora vou ali na academia, cuidar do corpo… algo que andava esquecido nos últimos anos.



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