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"Meu quintal é maior que o mundo"

  • Foto do escritor: Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
    Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
  • 3 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Krenak, Rufino e Byung Chul Han, Nêgo Bispo, Manoel de Barros

 

Estamos comendo o mundo, Krenak já alerta. Devorando de forma insaciável e deixando em coma os rios, afastando os encantados e surripiando o planeta de seu brilho e potência. E essa sede da humanidade de se sentir superior às outras vidas, destrói formas de viver, maneiras de se relacionar com a vida que nos cerca. O rio vivo, a mata viva, cada ser que nos rodeia. Rufino fala sobre aprender com a natureza, com a escola planta, com a sabedoria que nosso território têm para nos mostrar.

Fico pensando na alegria de ter nascido no Brasil, no Sul Global, onde a natureza é tão abundante e tão generosa. Nasci paulistana, mas me descobri cerratense. Aqui, entre as árvores tortas, o período da seca, a abundância das águas, meu coração soube repousar. As pessoas da fala mais mansa, o coração mais aberto, as pessoas nas portas da casa, “curiando” a vida que passa. Tudo isso foi amansando meu coração acelerado e me ensinando um outro ritmo de vida. Ainda estou na lição de aprender. É que tenho o passo acelerado e uma urgência natural com as coisas, mas estar em contanto com a natureza me amansa. Me ensina que existem outros modos de viver que no mundo que não tem tanta pressa.

Krenak fala sobre “Adiar o fim do mundo”. E eu gosto de pensar que isso está intimamente ligado à adiar o fim da nossa vida. Em vários sentidos. Deixar o tempo mais largo, mais lento, mais longe. Viver desfrutando, com mais qualidade, mais presença, mais conexão.

Ontem, enquanto rolava o feed, vi uma crítica sobre a sociedade contemporânea estar celebrando a tecnologia que nos permite resolver tantas coisas sem o contato humano, sem a necessidade de ter o “Inconveniente” de lidar com outro humano. Pode-se resolver tantas coisas através de uma tela. E a reflexão seguia falando de como estamos perdendo a habilidade de lidar com o humano, de nos conectarmos de lidarmos com intransigências cotidianas. E isso nos afasta da comunidade, do laço, da troca. Nos coloca em bolhas herméticas, isolados e frágeis. A era da conexão não nos conecta à outras vidas. Sejam elas humanas ou não.

Como sair das bolhas? Quais experiências podem nos reconectar às diferenças formas de existências? Nego Bispo nos fala da confluência. Sobre os diferentes mundos e perspectivas que se entrelançam, sem se anular, na troca, tão cheia de vida, de colocar ideias distintas para dançar, confluir. Essa ideia tão bonita é diametralmente oposta ao funcionamento das redes sociais e de como as Big Techs encaminham nossa relação com a tecnologia e o viver. Byung Chul Han fala sobre a morte do outro, a vida em bolhas que não toleram a diferença, que só repetem o mesmo discurso e anulam qualquer diferença. Desta maneira, perdemos parte da beleza da vida. Perdemos ao não aprender com a montanha, com os rios, com as diferentes culturas e formas de viver no mundo.

                Como desacelerar a experiência de viver? “Mais terra, menos tela” (adoro esse slogan da Carol Costa). Algumas palavras “brotam” desta minha reflexão, quase como uma teia de palavras, uma nuvem que quero tecer para compor a tese: Tempo. Comunidade. Comunidade de experiências. Vivências. Menos plateia e mais presença. Arte. Sensibilidade. Escuta do outro, de si e do mundo. Empatia. Sonho. Esperança.

                Durante a Pandemia da Covid- 19 houve um “boom” de vendas de plantas. E foi como se as pessoas descobrissem, muitos pela primeira vez, o poder de ver a vida florescer. Que para equilibrar a distopia, encher a casa de plantas era um remédio. Rapidamente surgiram modas de “urban jungle” e memes e piadas sobre os jovens/velhos pais/mães de planta. Eu tenho uma casa na mata, com rio circundando e muitas, muitas plantas. Aqui é meu refúgio. E em tempos de máscara e isolamento social, também serviu de refúgio para alguns poucos amigos. Era o ritual de “faz o teste, verifica se não está com covid e vem passar uns dias na mata”. Foi impressionante ver como as pessoas chegavam da cidade e como saiam daqui. Chegavam quebradas, assustadas, estressadas, mascaradas. Saíam leve, calmas, renovadas. Eram horas na fogueira, longe das telas, se banhando no rio sob o céu azul e sol escaldante. Espaços abertos com horizonte, ar puro, som de pássaros.

                Após o controle da Covid- 19 foi como se as pessoas esquecessem essas lições e os memes sobre cuidar de plantas foram mais no sentido de “melhor que ter pet, pq exige menos do seu tempo e dedicação”, “você pode comprar um vaso auto irrigável e cuidar somente uma vez por mês”; e por aí seguiam as reflexões da vantagem de se ter plantas, porque demandam menos da sua presença e tempo. E para que? Para poder se explorar ainda mais no trabalho. Para exigir de si mais alta performance, em busca de um reconhecimento externo e meritocrático que nunca vai bastar. Vivendo nesta “sociedade do cansaço”, meritocrática onde as pessoas se exploram a partir de uma demanda imposta por si, movidas por estímulos de redes sociais, totalmente ilusórios onde a vida passa a ser uma grande propaganda de marketing, na qual as relações sociais passam a configurar um problema, pois te “roubam tempo” de poder produzir mais e melhor. Para que? Para quem?

                A meu ver, para falar de educação midiática, necessito falar de uma vida que necessita ser vivida fora da tela. Que necessita de propósito, pausa, presença, de uma postura mais consciente no mundo e, a partir deste lugar, a relação com a tela pode ser modificada, vivida de forma habilidosa, abundante, generosa, empática e produtiva.

 
 
 

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