Perguntas artivistas de uma pesquisadora a/r/t/ográfica
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 22 de abr.
- 3 min de leitura

Onde estão minhas raízes? As vezes penso que não saem dos meus pés, mas das minhas vísceras. É no estômago que sinto os desejos pulsarem, criarem vidas, me levarem para tantos caminhos. Meus pés, que não são raízes seguem um caminhar errante, que buscam seguir as flores que brotam das minhas vísceras. As vezes é inverno, me recolho em hibernação de sementes desejantes e começo a morrer, mas tal qual o florescer no cerrado, rebroto em delicadeza e força, com cores vibrantes que atraem vida.
A arte sempre me envolveu de uma forma peculiar, tomando espaço nas mínimas atitudes da minha vida. Logo ao acordar eu já "ouço" uma rádio ligada na minha cabeça... a canção do momento me envolve e passo a cantarolar (as vezes mentalmente) uma canção que me embala e, normalmente, me segue durante um tempo do dia. Passo o dia selecionando poesias, imagens, doçuras e bravezas poéticas que me atravessam e assim vou moldando meu ser-estar no mundo.
Quando entrei na faculdade de música, eu já sabia que pretendia fazer da minha profissão uma ferramenta para propor transformações sociais. Queria trabalhar com música em contextos periféricos, aliando minha paixão pela música à possibilidades de ver/sentir/estar no mundo de outra maneira. Em determinado momento da minha graduação lembro de estar em uma discussão acerca do "papel' da arte na sociedade. Se a arte se bastava por si só ou se era necessário que tivesse um cunho político, social, intervencionista no mundo de alguma maneira. A arte poderia se justificar apenas pelo que ela desperta? A conversa foi longe e, de alguma forma, ainda ecoa em mim. Cheguei, naquela época, idos do início dos anos 2000 à uma conclusão pessoal: a arte não PRECISA estar à serviço de questões políticas e de militâncias, o ato de fruir arte, deliciar-se com ela, brincar com a arte, já tem sua existência 'justificada', existe uma potência política no ato de deslocar o sentir e isso, por si só, já é de uma potência enorme. No entanto, no ato de ensinar arte já não basta propor uma experiência com arte que não promova uma reflexão crítica sobre o mundo, é necessário "ser mais". E não estou falando aqui de nada panfletário ou partidário. Quando tratamos de ensino de arte, é necessário refletir o mundo de forma crítica e transformadora. Paulo Freire, Ana Mae Barbosa, John Dewey, Madalena Freire, Murray Schafer, Koellreutter, Carlos Kater e tantos outros educadores/artistas, pontuam a necessidade da arte como uma experiência transformadora que perpassa atos de reflexão, criação e apreciação. Ana Mae cunhou essa metodologia como proposta triangular e é um pensamento recorrente em diversos arte/educadores do mundo, podemos encontrar essa ressonância em "o Ouvido Pensante" de Schaffer e na forma como Koellreutter colocava "o humano" como objetivo maior da educação musical. Compreendem esse processo de apreciação, criação e reflexão contínua que gera nova forma de estar/viver/sentir e transformar o mundo.
A arte na escola, portanto, carece refletir o mundo em que se vive, propor análises, experiências, novos olhares e levar tudo isso à transformações possíveis: em si mesmo e na sociedade que nos cerca.
Uma experiência viva, rica, comunitária - visto que se insere na comunidade escolar - e ao mesmo tempo pessoal - já que cada significado e transformação passa por subjetividades únicas.
E de tanto pensar no que é a arte, qual seu papel, porque fazemos arte e porque devemos ter arte na escola - fui me enredando várias perguntas:
O que pode a arte no espaço escolar?
A arte possui quais linhas de força?
A arte como dispositivo?
Artivismo na escola?
O que a arte desperta, proporciona, invenciona?
Quando minha postura a/r/tográfica diante da vida percebe um mundo em cisão, em complexa fratura por guerras, desigualdades e opressões, é possível não afetar e ser afetado por isso e transbordar em atitudes artivistas?
Como ser professora de arte diante da guerra cultural dos tempos atuais?



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