Respirar
- Eliza Rebeca Simões Neto Vazquez
- 19 de ago. de 2024
- 4 min de leitura

Deixo que o algoritmo escolha o EBM que vai fazer trilha nesta escrita. Eu sabia que a tela iria piscar e meus dedos não correriam tão fácil pelo teclado, uma música ajudaria a destravar a escrita, mas não poderia ser qualquer uma... precisa de uma batida constante, sem letra, com fluxo.
Interrompo a escrita. O Algoritmo errou e me jogou para um som totalmente desconcertante. Tento de novo.
Agora sim.
Relembro o nome de alguns artistas de EDM e sigo na tentativa de preencher o papel com uma escrita que flua sem muito pudor. A música me dá um ritmo mais frenético e isso facilita não pensar tanto. Sei da facilidade que meus dedos possuem de percorrer um teclado... foram anos de técnica pianística que hoje me auxiliam na digitação. Não preciso olhar o teclado, posso ver as palavras surgirem rapidamente na tela. Não seria o mesmo se fosse papel...
O tempo, agora frenético, me faz ficar impaciente com o tempo que levo para escrever em papel... é mais lento... e por mais velocidade, perco a qualidade da letra... e a estética da letra apressada, torta, disforme, me incomoda.
Hoje faz 6 meses e uma semana que me mudei para Barão Geraldo. Parece mais... tanta coisa mudou. Agora tenho um tempo mais alargado do que antes... dias e noites só para mim, para poder me deixar flanar por prazeres de solitude. Tenho tempo de cozinhar, regar minhas plantas, cuidar do jardim, fazer pão, ler... ouvir podcast, ver aulas online. Dormir. Sei que é privilégio hoje em dia e me sinto grata diariamente por isso.
Relembro que nos anos anteriores eu mal tinha tempo de ir ao banheiro sem ter alguém querendo “despachar” algum assunto pela porta enquanto eu precisava simplesmente de 1 minuto ao banheiro. Aquela roda de moer gente me moeu mais do que eu gostaria. As vezes fico aliviada por ter saído a tempo... as vezes acho que não foi tanto a tempo assim, ficaram mais sequelas do que eu gostaria.
Mas hoje respiro o tempo com leveza, algumas (sérias) preocupações com dinheiro, mas no geral, entre o contar das moedas e pix, fico feliz por ter tempo até para economizar. Como posso cozinhar, posso economizar, como tenho tempo de ir de bicicleta, posso economizar... e nessa balança de trocar o dinheiro pelo tempo, me sinto mais livre e feliz.
Começo este texto no semestre passado. Começo na intenção de fazê-lo à dias atrás, mas nem sempre é fácil mudar hábitos e se propor ao novo.
(Agora o algoritmo acertou e me sinto leve com meu spotify – Aquarius – Bord of Canadá)
Logo que cheguei na Unicamp, fui à minha primeira matéria do curso de doutorado e as professoras Inês Bragança e Norma Silvia Trindade de Lima me deslocaram rumo à metodologia de narrativa. Pensar a pesquisa, a escrita, o doutorado sob nova perspectiva. Fiquei com a vontade de tentar me soltar e narrar a vida, as reflexões, o estudo, a pesquisa. Mas esse gesto livre a que me proponho aqui, nunca é tão livre como eu gostaria. Me sinto as vezes presa, dura, travada por anos de limitação acadêmica, religiosa, familiar.
Eu sou uma pessoa metódica e muito disse se deve à segurança que gosto de ter com caminhos bem traçados. Por outro lado, sinto que tais caminhos não me permitem criar como eu gostaria. E neste risco de atravessar um cruzamento que não estou habituada... me jogo na escrita livre, tentando compreender como posso “errar diferente, errar melhor”. Salve, Beckett e Salve minha amiga Ayumi, que me deu o bordado mais lindo e significativo pra essas dores sobre o errar.
Lembro de Janet el Houli me falar sobre o “errar” ... andar sem rumo, outro caminho... é só isso.. outra forma de fazer. Obrigada, Janet, ainda estou aprendendo a errar.. e sigo por aqui, errando neste Estado de SP que me faz casa e estrangeira ao mesmo tempo.
Já não sinto tanta saudade de casa. Sinto saudade dos meus, mas até essa é menor, porque tenho whatsapp, porque o afeto desconhece a distância e porque eu já estava acostumada e ter pouco dos meus, pela vida corrida que cada um leva.
E acho que no final das contas, o texto aqui é pra dizer que posso respirar hoje, que não sei se vou ter tempo de respirar sempre, mas que eu gostaria. Gostaria que em alguma medida, essa tese de doutorado seja sobre respirar contra e com os riscos da tecnologia. Que a tese possa refletir sobre os impactos desta loucura digital na vida social... e que a gente possa se a(r)mar de ferramentas contra-aceleramento, contra-embrutecimento, contra-dominação. Que respirar possa sempre ser uma escolha, ir ao banheiro com calma não seja privilégio de poucos. Que sempre tenhamos tempo de fazer pão, esperar ele esfriar na tábua, pra cortar no tempo certo e degustar olhando as roseiras.
Que a tecnologia nos sirva bem, nos ajude a conectar conhecimento e amores, nos ajude a refletir a expandir o mundo, mas não nos oprima e esmague neste aceleramento bruto.
Que a tese também possa ser um descortinar desta pesquisadora tantas vezes embrutecida nas certezas. Que possa me fazer ver e desver e rever diferente. Como criança que descobre o mundo. Como artista que inventa o mundo.
Que a tese possa ser uma oportunidade de criar a vida de uma forma mais inventiva e transformadora pra mim e para quem a obra possa alcançar.
Por hoje é só.
Obrigada, Spotify. A trilha funcionou. O texto fluiu. Amanhã tem mais.



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